A despedida
Um roteiro gastronômico completo numa das melhores cidades para comer: São Paulo

Dadinhos do Mocotó: meu petisco favorito
Talvez esse tenha sido um dos momentos mais esperados por mim nos últimos anos: uma carta vinda da França confirmava a aprovação do meu marido na Sorbonne. Depois de dois dias anestesiada, em estado de choque, minha mente foi bombardeada por pensamentos, e, com eles, surgiu uma lista de providências a tomar. Entre elas, a despedida. Precisava me despedir não apenas dos amigos e da família – certamente a parte mais difícil –, mas também da cidade que me acolhera há 16 anos, quando deixei para trás minha infância e adolescência no interior. Precisava me despedir de São Paulo e tinha pouco tempo para isso.
A primeira escolha foi o restaurante Mocotó: dadinhos de tapioca com recheio de queijo coalho para começar – o melhor petisco da cidade, escondidinho de carne-seca e, para fechar com chave de ouro, pudim de tapioca com coco. Tudo regado a “caju amigo” (caipirinha de caju), muy amigo. Meu Deus, acho que o chefe, Rodrigo Oliveira, virou meu ídolo.
Depois disso, foi a vez do Mestiço. Muitas, mas muitas cestinhas tailandesas de massa crocante com recheio de frango, de nome esquisito – só o nome é esquisito –, Krathong thong. E, como não poderia deixar de ser, caipirinha de saquê com frutas vermelhas.
Para uma última viagem inesquecível aos sabores das arábias, o Tenda do Nilo não podia ficar para trás. A esfiha de verdura de sabor levemente adocicado, marcado pela presença de especiarias – secretas, penso eu – e pela massa de textura e espessura inigualáveis, abre o apetite para o delicioso Fatte, mistura inusitada de grão-de-bico, carne desfiada e pão árabe torrado, cobertos por coalhada fresca e alho frito. E, para me fazer viajar, como sugere Olinda, uma das proprietárias, a sobremesa é o Mil e Uma Noites. Ainda passeando pelos sabores do Oriente, chegou a vez do Saj. O melhor pão árabe da cidade chega fumegante à mesa, acompanhado do trio de pastas e do delicioso e bem temperado chancliche. Ainda na categoria pestiscos e entradas, algumas esfihas esticadinhas – especialidade da casa – continuam a tentar me convencer que não é preciso passar para a fase dos pratos.
Nada brasileira, mas nem por isso menos prestigiada, precisava comer comida japonesa de qualidade – o que me disseram ser bem raro na Europa. Sushi Lika, na Rua dos Estudantes, bairro da Liberdade, foi o meu escolhido. Na verdade, há tempos não como sushi em outro lugar. E tenho meus queridinhos lá também: rolinho de arroz e alga recheado com camarão empanado e spice tuna, rolinho de arroz com atum picadinho e Tabasco.
E, para não dizer que não dei adeus a um bom prato de arroz e feijão, fui ao Astor e pedi um picadinho completo: arroz, feijão, ovo, pastel, farofa e picadinho de filé mignon acebolado. Como ousei algum dia a dispensar o pastel, o ovo e a farofa? Arrematei com chope gelado, como jamais encontrarei em Paris. E, das raízes italianas, comi pizza na Braz, focaccia do Balsâmico, no Mercadão, e penne Della Ragazza no Pasquale.
E você, que já estava pensando que eu me esquecera dos doces, fique sabendo que homenageei com gosto uma mania nacional: brigadeiro, muito brigadeiro. Afinal, não é por isso que a Maria Brigadeiro fica a poucos minutos da minha casa? E o meu preferido tem até nome francês: noir é o nome do danado. Não é que São Paulo também vai me fazer falta?

Brigadeiros da Maria Brigadeiro: um delírio de sabor













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