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Passaram a mão no Parc Güell?

3 de setembro de 2015

Parc guell_foto site oficial

Há pouco tempo estive no Parc Güell. Este era um lugar no qual tinha imensa vontade de voltar, já que havia visitado o parque em 1998 e, desde então, nunca mais havia retornado. Tinha na memória pouca coisa, mas havia ficado em mim uma sensação agradável, talvez alimentada pelas cenas de Albergue Espanhol (2002, Cédric Klapish – França) ou em Vicky, Cristina, Barcelona (2008, Wood Allen – EUA ).

Essa sensação não só desapareceu por completo nesta última visita, como se inverteu. Senti repulsa, decepção e uma certa agressão. Saí de lá completamente transtornada após receber a notícia de que eu só poderia entrar no parque depois de 2h30, pois naquele momento ele estava lotado. Desde o final de 2013 parte do parque, justamente a que contém as obras, foi fechada e é preciso pagar entrada. Ralhei, dei uma volta na parte ainda aberta ao público, mas não sabia exatamente classificar o que senti naquele momento, nem definir o que me incomodava tanto. Mas definitivamente algo me deixou engasgada.

O fato de cobrarem entrada era o problema? Não necessariamente. Há diversos lugares abertos dedicados à arte que também cobram entrada: Fondation Maeght em Saint-Paul-de Vence, Inhotim, o jardim de Niki de Saint-Phalle na Toscana (Giardino dei Tarocchi) , que teve entre suas fontes de inspiração o próprio Parc Güell e as obras de Gaudi. A cobrança de um ingresso é um meio válido e legítimo para a manutenção e conservação de obras de arte. E isso pode ser feito para alguma obra que esteja a céu aberto. Outro exemplo que me vem à mente é a Pont du Gard: um monumento histórico, classificado como Patrimônio Mundial da Unesco – assim como o  Parc Güell – e cuja entrada custa 18 euros (veículo com 5 pessoas). Ele é conservado de maneira impecável.

A espera e a fila então é o que me parecia absurdo? Também não. O Louvre tem fila, a Torre Eiffel tem fila, a pinacoteca de São Paulo tem fila. A fila faz parte do turismo cultural.

A contrariedade às ideias de Gaudi? Nem sei dizer. Imagino que ele queria que aquilo tudo fosse acessível à todos, mas não conheço a fundo sua vida e obra a ponto de levar tal afirmação ao extremo.

Mas o fato é que o Parc Güell é um parque… é um parque, é um parque… isso ecoava o tempo todo na minha cabeça.

Passado um tempo, me deparo com um documentário bastante interessante e intrigante, exibido no canal franco-alemão Arte, chamado Mainmise sur les villes (o documentário é de produção do próprio canal e data de 2013. A expressão francesa mainmise ao pé da letra quer dizer “metida de mão”; significa assim o exercício de um poder abusivo, de dominação no pior sentido da palavra. ). Nele, se questiona o processo de hiper urbanização e a consequente expropriação massiva em cidades diversas cidades ao redor do mundo como por exemplo Istambul, Hamburgo e até mesmo Paris.

As questões são abordadas sob o enfoque do cidadão, do habitante que tem amplo direito à usufruir da cidade. Na Itália um projeto de lei visa definir o que é bem comum, de modo que se possa proteger aquilo que é de todos e não é de ninguém, mas que precisa de uma proteção jurídica especial enquanto tal. Entende-se que a definição de espaço público é extremamente ultrapassada, pois coloca o poder todo nas mãos do administração pública, quando na realidade aquele bem – o bem comum – pertence aos cidadãos.

Automaticamente, ao assistir o documentário me veio um clique: é isso, é exatamente este o ponto em relação ao Parc Güell. Ao decidir fechar o parque, ainda que seja pela necessidade de arrecadar fundos para manutenção das obras de arte de Gaudi, o poder público coloca as mãos em algo que, até então, me parecia sagrado em terras europeias – eu estava enganada e o documentário deixa bem claro isso: o bem comum.

A colocação de um portão, de grades e de um caixa na porta de um parque antes aberto ao público é negar acesso ao cidadão à algo que lhe pertence, à SUA cidade, ao SEU espaço.  É o próprio poder público declarando que a cidade não é nem aberta, nem acessível. Logo, uma afronta ao que se chama de democracia urbana.

Não sou urbanista, nem escrevo aqui como advogada. Escrevo aqui como cidadã do mundo, viajante e blogueira que pretende lutar e refletir para que isto não se torne uma tendência. Não tenho respostas para a solução de eventuais rombos nos cofres públicos de qualquer cidade que seja, nem sobre a dificuldade de arrecadação de fundos para a manutenção do patrimônio histórico e cultural mundial. Tenho apenas a esperança de que a liberdade que sentimos em espaços como este possa continuar a ser respeitada e a existir. E desejo que as cidades saibam se reinventar com a participação de todos: de políticos, da administração pública, da iniciativa privada e, especial, de quem nela vive.

 

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