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“Cultura e censura: a rima não cola” ou “Somos todos marionetes ?”

8 de novembro de 2017

O Brasil tem sido palco de inúmeras discussões acerca de exposições e performances artísticas que envolvem nudez e a censura, calcada nos ideais da família cristã brasileira, vem ganhando espaço. Mas o que se vê de fato é o fundamentalismo religioso penetrando as estranhas da sociedade brasileira.

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O nu não é mais ou menos antigo que a existência humana. Ambos tem exatamente a mesma idade, sendo o primeiro indissociável do segundo. Ou seja, desde que o ser humano existe, a nudez é – ou deveria ser – a ele atrelada. Afinal, o homem não nasceu vestido. A questão que se coloca é desde quando a representação do ser humano em seu estado natural passa a ser condenada e até penalizada.

Desde a Antiguidade o nu é retratado pelo homem: Grécia, Egito ou Roma, cada qual com suas particularidades, esculpiam seres nus. É apenas a partir da Idade Média que a nudez passa a ser quase que exclusivamente relacionada à religião e mais especificamente ao pecado original de Adão e Eva. O corpo humano passa a ser visto como objeto de desejo, prazer e impureza e, portanto, de reprovação moral e religiosa.

Na Renascença um breve parênteses à esta interdição se opera e a volta aos padrões artísticos da Antiguidade permitem a nudez como forma de expressão artística. Mas é a partir de 1563 que ela é expressamente proibida pelo Concílio de Trento, com a retomada pela Igreja Católica dos Sete Sacramentos e da condenação do pecado original e da busca da pureza através da confissão.

Vale refletir que é exatamente nesta época que os portugueses desembarcam do outro lado do Atlântico, descobrindo – ou melhor, “cobrindo”- o Brasil. Com claro intuito catequizador, os colonizadores vestiram os povos nativos. Em 1549 com a chegada dos jesuítas, os preceitos cristãos europeus são impostos aos índios, que até então viviam nus.

Logo, enquanto colônia de Portugal, o Brasil nasceu vestido e nada ou muito pouco conheceu da história da nudez artística ocorrida antes da chegada dos portugueses. Nosso país nasceu e cresceu sob as mãos e o comando de uma política arraigada pelo moralismo religioso. E assim, quando comparada ao Velho Mundo – que continuou a evoluir em sua arte e cultura, o Brasil parou em meados de 1550, tendo até hoje impregnado em sua cultura o binômio pecado/culpa.

A França, por exemplo, pode liberar-se disso com a Revolução Francesa e a consequente separação entre Estado e Igreja. E o Brasil? Teve esta oportunidade ou é preciso ainda lutar para encontrá-la?

A liberdade total para viver e descobrir as coisas enquanto indivíduo, de compreender o mundo tal qual ele é, segundo Krishnamurti, só é possível quando somos desatrelados de dogmas, superstições e verdades impostas, seja no âmbito religioso ou político, entre outros.

Quando falamos de censura à arte no Brasil, como nos atuais episódios ocorridos em Porto Alegre e em São Paulo*, é este o calcanhar de Aquiles! O Brasil ainda busca a afirmação de uma moral religiosa em detrimento do homem, de sua inteleligência, de seu conhecimento e de sua expressão artística.

A arte permite ao ser humano expandir seus horizontes e pensar livremente, desvinculando-o dos dogmas religiosos. Um país onde a censura ainda tem lugar em pleno Século XXI é infelizmente fadado à ignorância e ao retrocesso. A polêmica e a discussão podem e devem existir, assim como cabe a cada um decidir ir, acompanhado ou não de seus filhos, ao museu. Além disso, imputar um crime** à um artista para praticar a censura é a forma mais baixa de manipulação que se pode exercer ao cidadão.

Quanto ao Estado, não cabe à ele escolher apenas uma via para a educação de suas crianças – a arte faz parte da educação – mas sim abrir caminhos para suas escolhas. Educação sem opção e liberdade de pensamento tem apenas um nome: autoritarismo. E com autoritarismo ninguém aprende e o mundo vira um grande teatro de marionetes.

*Refiro-me à dois episódios:

1 . performance “La bête”, na qual o artista Wagner Schwartz se apresentou nu na abertura do 35º Panorama de Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, que contou com a reprovação de João Dória , tendo o mesmo alegado que ela “fere, inclusive, o Estatuto da Criança e do Adolescente e, ao ferir, ele está cometendo uma impropriedade, uma ilegalidade, e deve ser imediatamente retirado, além de condenado”.

2. exposição “Queermuseu”, que foi fechada no Santander Cultural, em Porto Alegre, em resposta a protestos de grupos contra o que foi considerado “conteúdo ofensivo” da mostra. Quando negociada para ser reaberta no Museu de Arte do Rio (MAR), Crivella diz que não “querem no Rio de Janeiro exposição de pedofilia e zoofilia”

Para se aprofundar:
 – Sobre interverções artísticas em que o público participa efetivamente da obra, sugiro pesquisar sobre “Happening“, que remonta ao fim dos anos 50 e início dos anos 60 nos EUA e em toda a Europa. Interessante para entender a origem das performances artísticas, inclusive a que foi vetada no MAM de SP no mês passado, em que uma criança acompanhada pela mãe pôde tocar o artista nu.
 – Sobre educação e liberdade ler Jiddu Krishnamurti – Think on these Things – 1964.
- Sobre a censura do último mês, espie este texto de Leonardo Torres escrito em 03.10.2017,  para o site Teatro em cena: Por que o corpo nu incomoda tanto?
- Leia o Estatuto da Criança e do Adolescente, em especial os artigos 240 e 241, e o Código Penal, artigos 217 e 218.
- Na foto acima, A Origem do Mundo, de Gustave Courbet (1866), que está exposta no Musée d’Orsay desde 1995. Como tantos outros nus, este quadro causou polêmica. Vale a pena se aprofundar.

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